Larissa Zapata/Estadão Mãe sorrindo com bebê no colo
Gabriela Bavay considera o coworking o ambiente perfeito para ficar perto da filha e empreender

Pode brincar, filho. Mamãe está aqui do lado, trabalhando

Coworking para mães e pais ajuda adultos a tocar carreira com crianças pequenas; espaços têm cuidadores e atividades infantis

Brinquedos, jogos educativos, mesas para colorir e até piscina de bolinhas. Poderia ser a descrição de uma creche, mas é o cenário de um ambiente de trabalho. Para quem tem filhos. Espaços de coworking, onde convivem empreendedores e profissionais liberais, se espalharam pelas cidades brasileiras. Mas como fazer com as crianças? Um nicho do nicho se propõe a resolver isso: são as iniciativas de coworking para famílias. Enquanto pais — ou, mais especialmente, mães — tocam sua rotina profissional, os pequenos ficam com cuidadores.

A produtora artística Bruna Biason, de 33 anos, conduz sua empresa de eventos musicais a partir do Espaço Ponto Alt, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. “Eu tenho meu espaço de trabalho em casa, mas, se estou com minha filha e não tem ninguém para distraí-la, ela vai me chamar para brincar ou para ver o que estou fazendo”, conta. “Aqui dá para trabalhar, deixá-la tranquila com as cuidadoras e vê-la quando eu puder.”

Desde agosto do ano passado, Bruna vai ao coworking quatro vezes por semana, no período da tarde, e leva junto a filha, Victoria, de 1 ano e 10 meses. Enquanto os pais trabalham no segundo piso, as crianças podem se entreter no campinho de areia ou na brinquedoteca do térreo. Há também ateliê, horta, berçário, sala de soninho e área livre para a realização de atividades lúdicas. O espaço, que recebe crianças de 6 meses a 3 anos e 11 meses, é majoritariamente frequentado por mães.

“A gente ainda vive em uma cultura que diz que a mulher precisa se voltar para a família e o homem para o trabalho”, afirma Sabrina Wenckstern, de 33 anos, uma das proprietárias do Espaço Ponto Alt. “Quem acaba se questionando como equilibrar filhos e carreira é a mulher. O homem não precisa se fazer esse questionamento, porque em geral ele tem uma mulher cuidando das crianças. Quando não é a esposa dele, é a mãe, ou a irmã.” Mãe de Isabela, de 4, Sabrina se juntou a Fernanda Santiago, de 40, que fundou o local quando teve seu segundo filho, Téo.

O desafio de combinar negócios e filhos também moveu as empresárias Júlia Maturana, de 35, e Daniela Del Nero, de 47, a fundarem o Hugspot, espaço de coworking para famílias em Pinheiros, na zona oeste paulistana. As duas já trabalhavam em um escritório compartilhado para administrar sua empresa de eventos quando Júlia se tornou mãe de Pedro. Elas embarcaram, então, no novo projeto e inauguraram o Hugspot em maio deste ano. O espaço aceita crianças de faixa etária entre 6 meses e 4 anos. “A dor maior é da mãe”, diz Júlia. “Nós nos comunicamos mais com as mulheres que têm filhos, o que não quer dizer que sejamos fechadas para pais”, explica. “Mas, após a maternidade, ou a mulher não se sente mais parte do mercado ou é mandada embora depois que volta da licença. Daí, ela se vê num momento em que precisa empreender e, ao mesmo tempo, cuidar do filho.”

Entre as clientes do Hugspot estão a tradutora Suzana Oguro, de 40, e a consultora de carreiras Gabriela Bavay, de 33. Ambas levam seus filhos para o coworking. “Minha filha adorou aqui. Quando a gente não vem, ela sente falta. E o meu trabalho exige muito foco. Aqui consigo me concentrar melhor”, conta Suzana, mãe de Caio, de 3, e da Catarina, de 1. Já Gabriela considera que o modelo do negócio é “perfeito”. “Aqui é o ambiente ideal para empreender e ficar perto da minha filha. Eu não queria colocá-la numa creche e estar longe dela”, diz a mãe da Clarissa, de 1.

Larissa Zapata/EstadãoMãe abraçada com filho e filha
A tradutora Suzana Oguro e seus filhos Caio e Catarina

Para a gerente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP), Iroá Arantes, o home office não é mais a melhor solução para conciliar maternidade e trabalho. “A mulher está percebendo que ela trabalha mais em casa e não consegue dividir o tempo para o serviço e o tempo para a família”, avalia. “Por isso, os coworkings familiares dão a possibilidade para a mulher exercer sua atividade profissional e, ao mesmo tempo, ter um serviço que a ajude a ter esses momentos específicos com os filhos”. De acordo com a Associação Nacional de Coworking e Escritórios Virtuais (Ancev), esse nicho para famílias representa 5% dos cerca de 1.100 escritórios compartilhados no País.

Pais trabalham e filhos aprendem

Embora não sejam ambientes escolares, esses espaços prezam por atividades planejadas para que os pequenos não fiquem entediados e tornem a interferir no trabalho dos pais. Por isso, Júlia, do Hugspot, contratou uma pedagoga para orientar brincadeiras que estimulem o desenvolvimento em cognição, equilíbrio, memória e fala, entre outros aspectos. “O projeto pedagógico foi pensado para o que as crianças precisam aprender nessa faixa etária. Nosso objetivo é ajudar a desenvolvê-las, porque senão vira um espaço de shopping, onde elas só brincam. Não fazemos alfabetização, mas a criança entende o que é o quente, o que é o frio, como descobrir objetos com o tato, entre outras habilidades”, explica Júlia. As atividades são conduzidas por cuidadoras com cursos como recreação infantil, berçário e massagem.

Larissa Zapata/EstadãoEspaço de recreação com brinquedos infantis
Pedagoga orienta brincadeiras que estimulam o desenvolvimento das crianças no Hugspot

Essa preocupação também é presente no Jobly Coworking, na cidade mineira de Sabará. Fundado em abril pela educadora infantil Helena Iracy, de 58, e pelo engenheiro civil Alex Duarte, de 34, o estabelecimento oferece atividades como contação de histórias, reciclagem e musicalização, a crianças de 4 meses a 5 anos. “É um modelo de negócio novo e sustentável, mas não é lucrativo a curto prazo. O retorno deve demorar em torno de dois anos”, conta Alex. “O maior investimento é na reforma no local, porque não existe imóvel preparado para isso. O segundo maior investimento foi nos brinquedos dos espaços kids.” Segundo o empresário, o investimento em estrutura adequada e brinquedos variados superou R$ 100 mil.

Se você espera encontrar celulares, tablets, videogames ou qualquer outra diversão eletrônica para seu filho, é bom esquecer: boa parte dos coworkings familiares prefere oferecer brinquedos analógicos. É o caso do Conexão Pandora, escritório em Florianópolis onde as organizadoras defendem atividades infantis fora do ambiente digital. “Temos brinquedos de madeira, de encaixe, desenho, tinta e massa de modelar que eles mesmo fabricam. Nada digital. Acreditamos no desenvolvimento da criança a partir de si mesma. A tecnologia guia demais a criança sobre como brincar e como fazer”, afirma a designer Fernanda Steinbruch, de 35 anos, fundadora do espaço. O local recebe crianças de 6 meses a 5 anos.

Quanto custa o coworking para famílias

Nos espaços de coworking para famílias, os preços do serviço variam de acordo com a demanda do cliente. Uma hora com seu filho no Espaço Ponto Alt custa R$ 40 (vaga mensal por R$ 1.632, para todos os dias em horário integral). No Hugspot, o day use com seu pequeno sai a R$ 180 (ao mês, R$ 1.999 para cinco vezes por semana em horário integral). No Jobly, meio período custa R$ 65, de manhã ou à tarde (cinco vezes por semana em meio período a R$ 705 por mês).